Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo,

igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura — cara, estatura, traje e gesto — imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto vejo...

Intenção

 #intenção

07 de janeiro 2023


Intenção

Com os estudos e leituras já efetuados, arte generativa representa para mim um conjunto de processos, abordagens e/ou ferramentas com as quais será possível criar obras de arte únicas e singulares, recorrendo a ferramentas digitais. Com a particularidade de adicionar a programação ao estilo artístico e criativo, oferece a possibilidade de unificar dois mundos que antes pareciam distintos: a informática e a arte. Com as suas inúmeras aplicações, quer ao nível da imagem, vídeo, música e literatura, apresenta-se como uma abordagem muito adequada às minhas ideias (muito precoces) para a criação do meu Projeto Media Arte Digital.

Efetuando uma reflexão relativamente à intenção, considerando os seguintes pontos:

  • Expansão de formas artísticas existentes
  • Entretenimento e interação
  • Reflexão
  • Intervenção social e política

E explorando um pouco esta ideia que iniciei no ponto de “inspiração no meu DDB”, enquadraria a minha intenção ponto:

Expansão de formas artísticas existentes: 

- Reutilização de arte já existente para a criação de nova arte (inserida em ciberpoesia)

- Expansão da multiplicidade de personalidades pessoanas através de arte generativa, não só ao nível da recriação de texto mas também de pseudonímia;

- Transmitir ao público um “espaço sensorial” no sentido figurativo que (se imagina?) que passaria na mente do poeta (Fernando Pessoa) quando imergido no seu processo de criação literária – indo de encontro aos infinitos (dentro dele mesmo);

- Imortalizar o poeta, no sentido de o renascer, e em que a arte generativa poderá “dar continuidade” à sua obra literária, através da geração de poemas a partir de poemas existentes;




Vetores de desenvolvimento a considerar, tendo em conta os seguintes aspetos:


narrativa/desenvolvimento 

interação/evolução 

experiência/fruição 


O artefacto irá contar uma história? 


Não se procura contar uma história propriamente dita, mas pretende-se a materialização de um conceito, que vai ao encontro dos ideais da narrativa pessoana. Nos textos do poeta, a eternidade, a perenidade da sua escrita, a evolução dos seus textos após a sua morte, são temas muito versados e altamente importantes para o poeta (assinalados na escrita de vários heterónimos diferentes), inclusive, na sua carta onde esclarece a génese dos heterónimos, o Álvaro de Campos surge como o poeta que "sente um impulso para escrever", imparável e eterno.


O artefacto irá permitir viver parte de uma narrativa? 


"Viver" parte de uma narrativa, depende, será algo subjetivo. Se por "viver", se entender experienciar e absorver sensações e evoluções da arte literária integrada em média-arte digital, na sua construção e evolução em tempo real, então diria que sim. Se for no sentido da narrativa, o público sentir-se enquanto "personagem" que faz parte da narrativa, nesse sentido não se enquadra nas reflexões efetuadas até ao momento.


Conduzirá o público a uma conclusão? 


Esse sim, será um dos objetivos principais. O renascimento do poeta (ou a sua continuidade artística) na era digital, a possibilidade de contemplação da sua evolução na atualidade, uma extensão dos pressupostos deixados pela era modernista/futurista - legado que nos foi deixado em experiências poéticas de Álvaro de Campos (e pelo Manifesto Futurista de Marinetti). 

Na relação do artefacto com o público, existem já algumas anotações, embora ainda não esteja totalmente definida a forma como se irá estabelecer essa relação:

Proporcionar experiências visuais/sensoriais, apoiadas na "surpresa", novidade a cada poema gerado;

Envolvência com música e conteúdo visual (generativos);

Estimular sensações e emoções;

Contemplação / estimular ou despertar paixão pela poesia Pessoana;

Choque, na desconstrução de poemas que são ícones do poeta, e a partir deles a geração de novos: a utilização de texto original é uma forma que captar e manter a essência e autenticidade do poeta;

Interiorização / compreensão / identificação /expressão;


Ou será mais do tipo atmosférico/ambiental, apoiando-se em sensações? 


Tendo em conta o descrito no ponto anterior, neste momento inclina-se mais para o tipo  atmosférico/ambiental, apoiando-se em sensações e emoções, permitindo a contemplação ao mesmo tempo que se procura proporcionar uma experiência diferenciada no contacto com a poesia pessoana. 


E em qualquer dos casos, como irá ser feita a comunicação desses aspetos?


Recorrendo conteúdos visuais e sonoros para proporcionar experiências baseadas em emoções, sensações e contemplação.


De que forma existirá interação entre o público e o artefacto? 


Relativamente à relação e à forma com que o artefacto poderá proporcionar interação com o público, o que lhe poderá atribuir um acrescento não só de valor mas também consolidar o seu propósito, ainda não está definida a forma ideal para aplicar técnicas de interação. Duas ideias, contudo, estão em aberto:

No momento de contemplação / interação com o artefacto, existir captação do olhar. A geração da escrita, a movimentação do artefacto, poderá acontecer apenas quando despoletado pelo olhar, ao invés de se desenvolver imparavelmente com o programa em execução.

Deteção de olhar, mas com olhos fechados - a escrita não acontece, mas é produzido algum tipo de artefacto sonoro, também de forma generativa, com vista à transmissão da escrita não por palavras, mas através de sons.


O artefacto evolui em função dessa interação ou será imutável, debitando sempre o mesmo conteúdo e proporcionando a mesma experiência?


Pretende-se que o artefacto possa evoluir em função da interação, por exemplo, a geração de novos textos ir de encontro a algo relacionado com o público e à forma como este vai interagir. Não se pretende que seja repetitivo, mas sim imutável, proporcionando a sensação da impulsividade da escrita sem parar e eterna, sem repetição de conteúdo, e mantendo as particularidades da alma das palavras do poeta.


Quais os requisitos para que o público possa fruir de forma cabal da experiência que o vosso artefacto tem como intenção comunicar? 


Computador funcional, tela de projeção com boa qualidade de imagem, tecnologia de som com qualidade; 


Existe uma componente de performance associada? A performance é executada pelo público ou por alguém da equipa do artista/criador? 


Até ao momento não se prevê uma componente de performance.


Existem condições limitativas para que a fruição possa ocorrer? A audiência deve cumprir determinado protocolo para usufruir da obra, ou bastará estar na sua presença para tal?


Não se preveem condições limitativas, embora, se o público em causa tiver conhecimento prévio da escrita pessoana ou paixão pela poesia, poderá usufruir da experiência de uma forma mais pessoal, influenciada pelo seu contexto e nível de conhecimento, e sentirá, provavelmente uma maior envolvência, conseguindo absorver a conclusão de forma mais orientada. 

 

Temas a explorar:


Sobre Poesia Gerativa: Características Estruturais, Estilísticas e Lexicais


https://impactum-journals.uc.pt/matlit/article/view/2182-8830_6-1_5


Poesia experimental portuguesa: cadernos e catálogos


https://po-ex.net/evaluation/PDF/torres_flup.pdf


Arte Generativa Aumentada - Pedro Veiga


https://pedroveiga.com/arte-generativa-aumentada/


Os Inícios da Poesia Computacional e a Poesia Concreta


https://impactum-journals.uc.pt/matlit/article/view/2182-8830_6-1_4


Concrete Poetry


https://ubu-mirror.ch/papers/draper.html

                           

Generativepoetry.py


https://pypi.org/project/generativepoetry/


Poemário -Arquivo Digital da PO.EX


https://po-ex.net/taxonomia/materialidades/digitais/rui-torres-nuno-ferreira-poemario/


Um corvo nunca mais - investigação criativa na área da ciberliteratura

https://bdigital.ufp.pt/bitstream/10284/2801/3/54-63.pdf