Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo,

igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura — cara, estatura, traje e gesto — imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto vejo...

Relatório: Inspiração

 Etapas da A/R/COGRAFIA: Inspiração

 

Nos primeiros passos de criação do DDB, começando pela etapa da “Inspiração”, encontrei algumas dificuldades por ter a mente “vazia” naquilo que diz respeito a média arte digital, e não só, também os temas de desenvolvimento que poderiam servir de base para o início do meu processo criativo, pareciam não surgir. Não é pouco comum que:

“Na a/r/cografia a inspiração surge como o primeiro passo, o que pode parecer um pouco paradoxal num modelo rizomático e não linear, mas que, como veremos, pode ser o resultado de outros conjuntos de atividades. Contudo, a inspiração poderá não ser sempre consciente e identificável no processo de criação artística, e não será surpresa que apenas em retrospetiva o artista/investigador possa cabalmente identificá-la”. Veiga (2020)

Sentindo estas dificuldades no registo dos primeiros passos, o primeiro momento foi a criação do DDB, passando pela escolha de uma plataforma a utilizar para o seu registo, tendo sido inicialmente escolhida o Canvas. Contudo, tendo em conta as limitações que esta plataforma apresentava, mais concretamente na colocação de registos bem segmentados e identificados pela ordem das suas entradas, optou-se por definir um novo DDB, utilizando o formato blog. Nessa primeira entrada, foram inseridos os passos preliminares criados no canvas. A fotografia existente na imagem de fundo representa precisamente o espaço físico da artista, no preciso momento que se iniciam as primeiras reflexões.


Foram inseridos no DDB algumas entradas as quais registam esse momento inicial, e, posteriormente, outras entradas tiveram lugar, aquando dos primeiros contactos com vários projetos de média arte digital já conceituados. Nesse processo, surgiram algumas portas, e um estilo que rapidamente conquistou a minha atenção: Arte Generativa, que na minha mente encontrou relação com literatura (gatilho), o que deu origem a outras entradas, nas quais estão registados links e tópicos para explorar e desenvolver ideias e reflexões. Verificou-se assim que, o processo de inspiração não foi imediato, mas sim, fruto de uma caminhada reflexiva, de análise e investigação através das obras de outros artistas, o que, segundo Veiga (2020), é um passo natural neste processo:

“A inspiração por detrás de um projeto de a/r/cografia pode, assim, não ser totalmente evidente desde o início e precisar de tempo para se instalar, desenvolver e manifestar-se completamente, e pode até ser afetada pelas etapas seguintes”. Veiga (2020)

O registo sobre o projeto Rituals Venice, encontrou assim a sua razão de ser pois foi ao conhecer este projeto em particular que se desenvolveu a primeira inspiração propriamente dita. O que por si, também levou à reflexão sobre outras formas de arte generativa, tal como música e imagens generativas.

De fato, no meu processo de inspiração, existiu influência de passos seguintes, nomeadamente no momento do “Gatilho”, o que me levou a registar novas entradas na página de inspiração, sobre poesia generativa, um projeto em particular, de Rui Torres: Um corvo nunca mais. Com o jogo de palavras "Um corvo nunca mais" integrantes de um dos versos mais icónicos do poema de Edgar Alan Poe, neste artigo explora-se a utilização e a transformação do poema através do Poemário, possibilitando a geração de diferentes criações do poema. Este projeto de investigação foi criado através do Poemário, um editor de poesia combinatória, um software para criação de poemas combinatórios (Torres, 2010), com possibilidade de serem gravados numa galeria de poemas do telepoesis.net (https://www.telepoesis.net/poesias.html).

Funcionando como “uma semente”, o meu momento de inspiração não resultou apenas do contacto com a arte generativa, mas também do meu background em estudos de literatura, mais concretamente, Línguas Literaturas e Culturas (na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa). Adicionando uma das maiores referências, e indo de encontro à minha identidade enquanto apreciadora de literatura, o legado deixado por Fernando Pessoa.

 

Link para o DDB, página de entradas relativas à Inspiração:

https://ddbmsoberano.blogspot.com/p/inspiracao.html

 

Referências:

NFT Award Winner, Rituals – Venice. The Lumen Prize. Lumen Art Projects 2022. https://www.lumenprize.com/2022-winners/nft-award-winner

Veiga, P. A. (2020). O Museu de Tudo em Qualquer Parte: arte e cultura digital - interferir e curar. Coleção Humanitas, Centro de Investigação em Artes e Comunicação. Grácio Editor. https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/11265

Torres, R. (2010). Um corvo nunca mais. Revista da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Nº7. Universidade Fernando Pessoa. Pp. 54-63. https://bdigital.ufp.pt/bitstream/10284/2801/3/54-63.pdf